Cientistas descobriram uma rede genética que integra o sistema nervoso e imunológico e pode sinalizar risco de agravamento da hepatite.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram um conjunto de genes capaz de prever a evolução da hepatite viral no organismo. A descoberta indica que alterações nessa rede genética podem refletir desde a intensidade da inflamação no fígado até o risco de desenvolvimento de câncer hepático.
O grupo batizou esse conjunto de genes de neuroimunoma, em referência à integração entre os sistemas nervoso e imunológico, mostrando que ambos atuam de forma coordenada na resposta do corpo à infecção.
O estudo, financiado pela FAPESP, foi publicado em dezembro de 2025 no Journal of Medical Virology. Para chegar às conclusões, os pesquisadores analisaram mais de 1,8 mil amostras de bancos de dados públicos de diferentes países, incluindo Estados Unidos, Itália, China, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Taiwan.
As amostras incluíam tecidos hepáticos e células sanguíneas de pessoas infectadas pelo vírus da hepatite.
De acordo com Otávio Cabral Marques, professor da Faculdade de Medicina da USP e coordenador da pesquisa, a primeira pista surgiu ao observar o comportamento dos leucócitos no sangue:
“Nossa primeira descoberta foi que leucócitos de pacientes com hepatite começam a expressar genes normalmente associados ao sistema nervoso. Isso indica que os sistemas nervoso e imunológico não funcionam isoladamente, mas estão conectados por uma rede genética que coordena respostas em todo o organismo, especialmente em casos de inflamação crônica”, afirmou Marques.
Genes podem indicar evolução da doença
Utilizando técnicas de aprendizado de máquina para analisar os dados, os pesquisadores observaram que o padrão de expressão desses genes se altera conforme a hepatite progride. Em estágios mais avançados da doença, como o câncer de fígado (hepatocarcinoma), alguns genes passam a ser ativados de maneira diferente. Essas alterações podem funcionar como marcadores biológicos da progressão da doença.
“Percebemos mudanças claras no comportamento desses genes ao longo da evolução da hepatite. Isso sugere a possibilidade de utilizar esse conjunto genético como biomarcador para monitorar o agravamento da doença”, explica Adriel Leal Nóbile, cientista de dados e coautor do estudo.
Entre os genes destacados, alguns estão ligados a mecanismos de estresse. Um exemplo é o DBH, envolvido na produção de noradrenalina, neurotransmissor importante na resposta do organismo ao estresse.
De acordo com os pesquisadores, o aumento da atividade do gene DBH em tumores mais avançados indica que processos relacionados ao estresse podem influenciar o microambiente do câncer no fígado.
Além disso, outros genes dessa rede também estão associados a condições de saúde mental, como depressão e ansiedade. Embora o estudo não tenha investigado essas doenças diretamente, os autores destacam que a descoberta reforça a conexão biológica entre inflamação crônica, sistema nervoso e saúde mental.
Para Otávio Cabral, os achados contribuem para ampliar a compreensão sobre a forma como o corpo responde a doenças de longa duração.
“Não se trata apenas de o sistema nervoso influenciar o sistema imunológico. O que observamos é uma rede altamente interconectada, que coordena respostas por todo o organismo”, afirma o pesquisador.
Os cientistas acreditam que, no futuro, o neuroimunoma pode auxiliar os médicos a identificar precocemente pacientes com maior risco de complicações e até apontar possíveis efeitos da doença sobre a saúde mental.



