Guerra no Irã redesenha mapa econômico: Rússia pode ganhar fôlego, enquanto Ásia, Europa e países pobres sentem o choque

Alta do petróleo, crise no Estreito de Ormuz e pressão sobre fertilizantes criam vencedores relativos e ampliam o risco de inflação, recessão e insegurança alimentar.

guerra no Irã já começou a redesenhar o mapa dos impactos econômicos globais, com efeitos muito diferentes entre os países. Em um cenário de petróleo mais caro, transporte marítimo pressionado e oferta de fertilizantes ameaçada, não há vencedores absolutos — mas há países que podem obter ganhos relativos, enquanto outros já aparecem entre os mais vulneráveis ao novo choque internacional. O Fundo Monetário Internacional alertou nesta semana que uma alta prolongada da energia pode elevar a inflação global e reduzir o crescimento, enquanto o conflito também pressiona cadeias logísticas e alimentos.

Entre os que podem lucrar relativamente, a Rússia desponta como o caso mais evidente. Com o barril em alta, Moscou tende a arrecadar mais com exportações de petróleo num momento em que seu orçamento segue pressionado pela guerra da Ucrânia. Além disso, a nova crise no Oriente Médio ajuda a desviar atenção diplomática, estoques militares e parte da capacidade de resposta do Ocidente para fora do front ucraniano. Ao mesmo tempo, o mercado internacional continua abrindo espaço para petróleo russo na Ásia, mesmo sob sanções e gargalos logísticos.

A China ocupa uma posição mais ambígua. De um lado, entra na crise mais protegida do que outros importadores graças a estoques estratégicos de energia, maior diversificação de fornecedores e laços mais profundos com a Rússia. De outro, o encarecimento do petróleo e os custos logísticos mais altos ameaçam sua indústria exportadora, num momento em que a demanda doméstica continua fraca. Analistas ouvidos pela Reuters apontam que o país pode até transformar sua atual deflação em uma “inflação ruim”, puxada por custos, não por aquecimento econômico. Ainda assim, Pequim pode tirar proveito diplomático ao tentar se apresentar como ator mais estável que Washington em meio ao caos.

Os mais atingidos tendem a ser os grandes importadores de energia e as economias mais frágeis. A Índia já sente a pressão com queda da rupia, risco maior de inflação e dependência relevante de gás natural liquefeito do Catar, cuja infraestrutura foi atingida. O Japão também aparece entre os mais expostos, por sua forte dependência do petróleo do Oriente Médio. Na Europa, países como Alemanha, Itália e Reino Unido enfrentam impacto direto sobre energia, indústria e custo do dinheiro, enquanto a competição global por gás tende a apertar ainda mais o mercado.

Nem mesmo os países do Golfo escapam. Embora sejam produtores de energia, alguns deles passaram a figurar entre os mais prejudicados pela guerra por causa dos ataques à infraestrutura e das limitações de exportação. O caso mais emblemático é o do Catar: segundo a Reuters, os danos recentes apagaram 17% de sua capacidade de exportação de GNL por um período estimado entre três e cinco anos. Kuwait, Bahrein e outros exportadores da região também passaram a ter suas projeções de crescimento revistas para baixo.

Nas economias emergentes mais frágeis, o choque pode ser ainda mais duro. Reuters aponta que países como Paquistão, Bangladesh, Egito, Sri Lanka, Quênia e Somália estão entre os mais vulneráveis, tanto pelo peso dos combustíveis nas contas externas quanto pela dependência de fertilizantes que passam pelo Golfo. Cerca de 30% do comércio global de fertilizantes cruza a região, e os preços da ureia já subiram entre 30% e 40%. Isso amplia o risco de inflação de alimentos, quebra de safra e insegurança alimentar nos próximos meses.

Nesse quadro, a América Latina aparece relativamente mais protegida do que Ásia, Europa e parte da África, sobretudo no tema dos fertilizantes, embora não esteja blindada contra petróleo caro, frete mais alto e desaceleração global. O ponto central é que a guerra no Irã não cria “ganhadores” no sentido pleno, mas sim beneficiários relativos de curtíssimo prazo — como a Rússia — e uma longa lista de países mais expostos a inflação, perda de renda e crise de abastecimento. Se o conflito se prolongar, os efeitos devem se espalhar muito além do Oriente Médio e contaminar crescimento, comércio e preços no mundo inteiro