A busca pelo corpo ideal, impulsionada por padrões estéticos e pela promessa de resultados rápidos, tem alimentado o mercado clandestino das chamadas “canetas emagrecedoras”. Vendidos de forma ilegal, muitas vezes por contrabando ou descaminho e comercializados em redes sociais e canais informais, esses produtos representam ameaça crescente à saúde pública, alerta a médica Mariana Por-Deus Vilela.
Segundo a especialista, se 2025 foi marcado pela explosão no uso desses medicamentos, 2026 pode se tornar o “ano das complicações”. Em entrevista, ela detalhou os riscos associados ao uso indiscriminado e sem acompanhamento profissional.
Conteúdo desconhecido e risco imediato
A principal preocupação, de acordo com Mariana, é a incerteza sobre o que realmente está sendo aplicado. “Infelizmente, a gente não tem conhecimento do que há ali dentro”, afirma.
Enquanto medicamentos originais aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passam por rigoroso controle de produção, transporte, armazenamento refrigerado e exigem receita médica especial, as versões falsificadas não oferecem qualquer garantia de qualidade ou segurança.
Segundo a médica, além de matérias-primas de baixa qualidade, já foram identificados casos em que o produto continha insulina. “Já vi casos de internação e até de morte por conta disso”, relata.
A aplicação de insulina em pessoas que não são diabéticas pode provocar hipoglicemia grave, com sintomas como confusão mental, convulsões, coma e até óbito.
Outra prática comum é a venda de semaglutida (princípio ativo do Ozempic®) como se fosse tirzepatida (Mounjaro®). “O paciente compra gato por lebre”, explica. Além disso, o transporte inadequado pode comprometer a estabilidade da substância, tornando-a ineficaz ou até tóxica.
Efeitos colaterais e automedicação
Mesmo medicamentos originais podem causar efeitos adversos quando usados sem supervisão médica. Entre as complicações mais graves estão pancreatite e gastroparesia (paralisia intestinal), que podem exigir internação em UTI.
Sintomas como náuseas intensas, vômitos persistentes, diarreia e constipação severa também são frequentes — e tendem a se agravar quando há uso irregular ou produto de procedência duvidosa.
A médica alerta ainda para a automedicação e o uso combinado de diferentes “canetas” sem orientação profissional. Embora associações medicamentosas possam ser válidas em contextos específicos, elas exigem estratégia clínica e conhecimento técnico.
“Associar medicações pode ser válido, desde que dentro de uma estratégia elaborada por um profissional competente. Tem que ter motivo”, ressalta.
O uso indiscriminado pode sobrecarregar órgãos como fígado e rins e aumentar o risco de intoxicações.
Dependência e distúrbios alimentares
Mariana Vilela destaca que o uso irregular pode agravar ou desencadear distúrbios alimentares. A dependência psicológica também é uma preocupação: o paciente pode passar a associar autoestima exclusivamente ao medicamento.
Além disso, o organismo pode desenvolver tolerância, exigindo doses maiores para o mesmo efeito — o que se torna ainda mais perigoso quando a composição do produto é desconhecida.
A médica reforça que a obesidade é uma doença crônica e que a medicação, quando indicada, deve ser vista como “ponte” para mudanças sustentáveis no estilo de vida.
O risco dos “magros doentes”
Um dos principais alertas é o fenômeno dos chamados “magros metabolicamente doentes”. O emagrecimento isolado, sem tratar aspectos metabólicos e comportamentais, pode levar à perda de massa muscular (sarcopenia), comprometendo a saúde cardiovascular e aumentando o risco de doenças cardiometabólicas e neurodegenerativas.
“O paciente que usa só a canetinha e não trata o metabolismo fica refém do medicamento”, afirma.
O número na balança pode diminuir, mas a saúde pode se deteriorar silenciosamente.
Tratamento seguro e acompanhamento multiprofissional
Para a médica, o tratamento adequado da obesidade vai muito além da aplicação de uma injeção. O modelo ideal envolve acompanhamento multiprofissional, com médico, nutricionista, educador físico e, em muitos casos, psicólogo.
A abordagem deve incluir controle de fatores hormonais, metabólicos e inflamatórios, melhoria da qualidade da alimentação, regulação intestinal, prática de exercícios e hidratação adequada.
“A medicação é uma excelente coadjuvante, mas o protagonista principal ainda é o próprio paciente”, afirma.
Sobre medicamentos aprovados pela Anvisa, como a tirzepatida, Mariana reconhece os avanços: as novas incretinas podem proporcionar perda de 20% a 25% do peso corporal, resultado significativamente superior ao de fármacos mais antigos. Ainda assim, reforça que a segurança depende de prescrição adequada, acompanhamento contínuo e fiscalização rigorosa.
O objetivo final, conclui, não é apenas emagrecer, mas construir saúde de forma sustentável e segura.



